sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando a Ciência Precisa de Fé


Esses dias, durante um levantamento bibliográfico, não facilmente encontrei um livro derivado das pesquisas do Projeto Manejo dos Recursos Naturais da Várzea – PRO-VÁRZEA, outrora facilmente disponível para baixar no antigo site do IBAMA. Isso me foi um indicador do declínio da pesquisa, em especial em questões ambientais, na Amazônia nos últimos anos.

Ingressei na UFAM em 2005, ano de publicação do livro que eu buscava. Até 2008, ano de conclusão do curso, comecei a compreender melhor a pesquisa científica e me identificar com aquilo. Segui. Projetos, atividades de campo, artigos, grupos de pesquisa, trabalhos técnicos, etc. Depois mestrado e trabalho tanto na Gestão em CT&I quanto na área ambiental. “Doutorado agora não, vou ter outras experiências”.

Depois, de repente (mas sem muita surpresa) a desastrosa vitória de José Melo nas eleições para Governador do Amazonas simplesmente acaba com mais de uma década de trabalho na construção e consolidação dos sistemas de CT&I e de Meio Ambiente no Estado (expondo também suas fragilidades). Depois, um golpe de Estado em nível federal termina de fuder tudo.

Sei que ficou ruim pra todo mundo que não está no esquema. Mas falando como quem vinha trabalhando nas áreas de CT&I e Ambiental (que não representam prioridades nas ações governamentais), as coisas ficaram críticas. Não há perspectiva nenhuma. E pior é o incalculável desperdício de recursos.

Exemplifico. Participei de um projeto para implementação de Unidades de Conservação Estaduais no Amazonas com um orçamento de milhões de reais cujos resultados hoje não são aproveitados, por conta das diretrizes políticas do Estado. Em 10 anos, muitxs formaram-se em nível de mestrado e doutorado no Amazonas, com bolsas da CAPES, CNPq e FAPEAM, e agora estão sem perspectiva nenhuma.

Daí, em várias conversas com colegas de ofício acadêmico, eu sempre cito que há 5 ou 10 anos atrás, com a formação que temos hoje, estaríamos tranquilamente trabalhando, principalmente no governo e terceiro setor. Ou seja, uma das conclusões é que eu e mais uma galera fomos formados para atuar em algo que simplesmente não existe mais.

Isso não é apenas uma discussão sobre empregabilidade. Mas sim, sobre como se pode desperdiçar o potencial de uma geração que se capacitou e está preparada para contribuir com a melhoria da vida como um todo. Como se distancia toda uma nova geração dessas áreas tão importante por não haver nenhuma perspectiva. Como se consegue inventar um tênue limiar entre resultados extremamente positivos de um programa governamental e uma fragilidade que pode desconstruí-lo da noite pro dia.

Não faltariam dados para comprovar os avanços nas áreas em discussão nos últimos 15 anos, ao mesmo tempo em que não faltam provas para atestar uma corrupção desenfreada no mesmo período. Adivinhem quem permanece e quem é desconstruído? A questão de fundo é de cultura política.

O prejuízo é muito grande. Não sei quando teremos um cenário semelhante ao de 2005, momento no qual se publicavam estudos bons e inéditos sobre a Amazônia feitos por cientistas brasileiros e da região e se ampliava o acesso ao ensino superior de forma a aumentar a presença de jovens oriundos de minorias (preto/indígena, pobre, nortista, etc.), como eu.

Por não me restar outra condição senão a de resistência, estarei com mais uma galera aí na luta para que não demore. Mas, no fim, não é uma questão de tempo cronológico. Nossa vontade é inversamente proporcional à "vontade política". Nossas mãos e corações ainda são poucos e todos os dias temos “baixas”, com colegas voltando para os seus/suas e/ou buscando qualquer coisa para trabalhar e sobreviver.

E, por a ciência não ser nenhuma última tábua salvação, como acredita-se, espero que xs colegas se encontrem em ofícios que lhes dê prazer, satisfação, realização e uma grana. Pensar que alguém que fez doutorado não pode ser jardineiro ou bartender é o mesmo que dizer que as pessoas que ocupam ofícios como esse podem até gostar de ciência, de pensar, refletir sobre a realidade, mas não tem direito a fazer um doutorado por que isso está restrito a quem se almeja cientista. Ou seja, não universaliza a proposta acadêmica.

Para quem insistir nessa de ciência, resta-nos assumir a contradição de lutar baseados na crença de que vai dar certo. Sim, tenhamos fé, cientistas! Isso por que se nos apoiarmos no próprio método científico para fazer uma análise dos dados e da conjuntura para as áreas de CT&I e Ambiental a médio e longo prazo no Brasil e Amazonas, os resultados certamente indicariam que não perdêssemos tempo investindo nisso, para fins de trabalho.

Como minha relação com a ciência não tem se restringe à dimensão estritamente laboral, insistirei mesmo me descobrindo em qualquer outro ofício que pouco dependa dela. Com todas as críticas possíveis, ela já ajudou muito a "sair das trevas mais sombrias" e apenas tentar desconstruí-la é criar um vácuo perigoso em um momento quando o "espírito das luzes*" mostra seus limites.

Não desejo voltar
Aos tempos de outrora
Mas simplesmente que o tempo de agora
Não me faça abandonar os meus desejos
Que, como certos beijos,
Compensam a demora...

André de Moraes
Manaus, pico da cheia de 2017.


*em alusão ao livro homônimo de Tzvetan Todorov

Nenhum comentário:

Postar um comentário