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domingo, 5 de agosto de 2012

A Manaus das Paisagens Extemporâneas: os espaços dos cinemas nos tempos do centro e os espaços do centro nos tempos dos cinemas





André de Moraes



Lembro-me que, em meados da segunda metade dos anos 1990, havia em Manaus a campanha "Eu Quero a Nota" promovida pela SEFAZ. A intenção era incentivar os consumidores a exigir a nota fiscal visando diminuir a sonegação. Como contrapartida, qualquer pessoa que reunisse R$ 150,00 em notas poderia trocá-las por um cupom que incluía um “raspadinha”, com a qual era possível ganhar prêmios diversos, e um “vale-show”, que poderia ser utilizado como ingresso para shows, teatros, cinemas, jogos de futebol, entre outros eventos. Este último foi amplamente utilizado. Por vezes, ficávamos mais de três horas na fila do Cine Chaplin para assistir um filme. A espera passava a ser parte da diversão com as interações que ali ocorriam: pessoas se conheciam, paqueras, situações engraçadas. Aquele parece ter sido o último suspiro dos cinemas no centro de Manaus. Depois disso, ir ao cinema passou a ser quase sinônimo de ir ao templo do consumo.

A decadência dos cinemas no centro e sua absorção pelos shoppings é um indicador da depreciação da área central nas cidades e das novas dinâmicas de consumo concentrado. Num shopping não se vai somente ao cinema. Alí é possível comer, comprar uma variedade de coisas e mesmo ir ao teatro, show ou uma festa. Não somente em Manaus, como também em várias cidades pelo Brasil, os prédios no centro onde funcionavam as salas ganham novas funcionalidades (em Manaus o antigo Cine Chaplin virou o Casablanca Pub) ou se tornam cinemas pornôs (como o caso do antigo Cine Renato Aragão, na Av. 10 de julho, também em Manaus) Estes últimos, por vezes, são apropriados como microterritorialidades para prostitutas, travestis entre outras “lumpem-minorias” como forma de garantir seu trabalho longe da discriminação e violência conforme bem descreve o Antropólogo Alexandre Vale no seu livro No escurinho do Cinema: cenas de um público implícito ilustrando o caso de Fortaleza/CE.

Com o discurso asséptico de "revitalização da área central", que na verdade esconde uma estratégia para a reprodução do capital, é apregoado o resgate dessa simbólica porção espacial da cidade como uma forma de diminuir a marginalidade, ofertar opções de lazer para a população e promover o turismo. O poder público tem interesse nisso e vários são os motivos. Desde a higienização e regulamentação do espaço até uma facilitação para abertura de novos empreendimentos dos mais variados compõem as intenções. Existem programas do governo federal para “revitalização de áreas centrais”e mesmo específicos para reativação de cinemas via Ministério da Cultura. O planejamento urbano, ditado pelos interesses imobiliários, principalmente, visualiza nesse movimento oportunidades de novos mercados e, quase que somente isso, justifica a atenção prestada à área central.

O uso do espaço público deve, assim, estar sob a custódia do Estado que não reconhece formas alternativas de apropriação. Não tardará surgir em Manaus uma proposta de revitalização de um desses cinemas, talvez como forma de não ficar de fora desse movimento sob a alcunha do fomento à cultura, ao turismo e desenvolvimento urbano. Assim a paisagem da cidade vai se desenhando como num filme, onde ocorre a supressão/compressão de tempos e espaços. No tempo, a paisagem pretérita é revisitada e recriada no presente como se nada houvesse ocorrido entre as reformas de uma praça (por exemplo) e sua “revitalização”. Ignoram-se os aconteceres desse intervalo que marcaram pessoas que ali criaram seus lugares e não se identificarão uma paisagem extemporânea à sua vivência. No tocante ao espaço, tais quais alguns filmes que ocorrem em pouco cenários, privilegia-se alguns poucos pontos na área central para serem “luminosos” enquanto todos os demais continuam “opacos”. Induz-se, desse modo, que as tramas sociais que ocorrem na luminosidade sejam reconhecidamente morais e legais, enquanto tudo aquilo que se desdobra na opacidade está passível de reprovação, repressão e regulamentação. Segue-se, assim, comprimindo tempos, suprimindo espaços e ignorando vivências.

Manaus não é mesma. Na verdade, não existe o “mesma”. São tantas Manaus quanto variados forem seus olhares. Entretanto, se deixa predominar aqueles que, forçosamente, tentam manter a configuração do elenco entre os que a protagonizam (Estado e Capital), fazem participações especiais (turistas) e dos meros coadjuvantes (população, em sua maioria). Os cinemas estão totalmente sujeitos ao movimento da reprodução do espaço urbano marcado por conflitos. Seu retorno ao centro pode ser apenas um preciosismo nostálgico para o qual o Estado não tem o menor problema de participar ou via uma movimentação artístico-popular alternativa de revindicação do direito à cidade. Comercialmente, o centro perdeu para o o shopping e o cinema (comercial) é um dos indicadores disso. No entanto, essa pode ser a conjuntura propícia para que este seja apropriado pela população que poderá garantir outras lógicas para seu uso que não somente as do capital.

O papel (mesmo que não reciclado) do Estado nesse contexto está comprovado. Não sei se a SEFAZ alcançou seu objetivo fim de diminuir a inadimplência, mas a campanha garantiu acesso por parte da população à uma variedade e quantidade de eventos que dificilmente se repetirá. Essa iniciativa segurou os cinemas no centro por mais tempo com impactos significativos na dinâmica de lazer da cidade. Acredito que não precisamos de uma campanha semelhante para ressignificar o espaço central de Manaus e nem para reabrir cinemas. A cidade está cada vez mais distante do Centro. Talvez o impacto da abertura de salas de cinema nas zonas e/ou bairros da cidade seja bem maior e mais adequada considerando o objetivo de universalizar o acesso. Ao centro restaria ser a paisagem urbana síntese de todos: excluídos, incluídos e recluídos. O lugar de revisitação da geografia e história da cidade e de seus habitantes a serem exibidas em curta, média ou longa-metragem dependendo do quanto ainda restar das paisagens que dizem por si aquilo que não sabemos dizer por nós.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PORTA DE COLETIVO CAI ENQUANTO PASSAGEIROS DESCIAM

“Por que a porta e não o Pré-feito?”
André de Moraes
Manaus, 23 de novembro de 2011.

Hoje, no meu deslocamento diário de 002 (interbairros), tudo ia como sempre. Demora, engarrafamentos e o desconforto de uma condução lotada. Em certo momento eu ouvia notícias pelo rádio enquanto o ônibus para no ponto próximo ao campo do “buracão” no Parque Dez de Novembro. De repente, ouço um barulho e percebo comentários com risos e ironias. A porta do coletivo havia caído quando o ônibus parou.

O motorista é alertado por passageiros e recolheu a porta acomodando-a no meio do coletivo que, após essa intervenção, seguiu seu trajeto normalmente.  “Nem pra ter caído no chifre do Negão!” exclamou uma passageira. Os trabalhadores, estudantes e demais usuários demonstravam expressões que mesclavam o trágico e o cômico, mas seguiam para seus compromissos comentando a periculosidade da situação. “seriam esses os novos ônibus que justificaram o aumento da passagem?”. Tratei de registrar a situação e torna-la pública esse episódio para não estar sujeita à pauta da mídia.


Realmente a gestão municipal não leva a sério os usuários do transporte coletivo em Manaus e não faz o mínimo esforço de promover uma discussão qualitativa. Estamos sujeitos a um prefeito notadamente perdido. O modelo político (centralizado, populista e baseado numa democracia incompleta que se esgota representatividade) que a atual gestão insiste em adotar não dá mais certo como outrora. A maior possibilidade de acesso à informação encurtou mais ainda as pernas da mentira. Isso, combinado ao eco cada vez maior das vozes que reclamam o interesse coletivo, desenha um cenário favorável a uma proposta política com maior participação e controle social resultando na indução do processo político no sentido dos interesses da coletividade.

O que podemos e devemos fazer é explorar a crítica latente por trás de episódios como este e divulgá-las fazendo com que, ao invés de portas de coletivos, vá abaixo de uma vez o “pré-feito” (nos moldes da sua visão política ultrapassada) Amazonino Mendes e toda a sua promiscuidade política, pois acredito que, se ainda havia alguma máscara, essa já caiu há muito tempo.



Fotos: André de Moraes.




terça-feira, 19 de abril de 2011

O Precário Conhecimento de como Conhecer a Amazônia

André de Moraes


Muito se tem falado sobre o insipiente conhecimento sobre a Amazônia, mas tal fato não parece ter o devido reconhecimento. As agências de fomento à pesquisa, principalmente no âmbito da união, ainda têm deixado a desejar não reconhecendo esse fato em seus pareceres sobre projetos de pesquisa oriundos da região. Não raro, ouço depoimentos de pesquisadores próximos que evidenciam o grave desconhecimento dos consultores de tais agências do que seja fazer pesquisa na Amazônia. Esse texto visa problematizar a questão da concentração das decisões no âmbito da ciência e tecnologia no Brasil e a necessidade de revisão desse modelo.

Primeiramente, é necessário dizer que as decisões no âmbito do CNPq estão concentradas no sudeste. Isso é fato quando verificamos o mapa das UF’s de atuação dos consultores dessa agência (abaixo). Um terço do total de consultores (33%) é de origem de instituições de São Paulo enquanto toda a região norte do país tem apenas 1%. Se considerarmos que a maioria desses pesquisadores não tem pesquisas na Amazônia (o que seria o mínimo para um parecer qualitativo) temos um quadro grave de desconhecimento da realidade da pesquisa na região por parte daqueles que decidem acerca dos recursos.


Um cenário semelhante é verificado quando observamos os percentuais de doutores atuando em 2009 (bolas vermelhas no mapa). São Paulo concentra 31% destes enquanto toda a região norte tem apenas 4% do total nacional. Isso justifica os incentivos a formação e fixação de doutores na Amazônia para que estes possam captar os recursos. Tal escassez de recursos humanos poderia justificar a incipiente presença destes nos comitês, entretanto prescindir desses pesquisadores que possuem real conhecimento da realidade da pesquisa na Amazônia (custos, transporte, infraestrutura, logística, etc.) nas decisões apresenta riscos de grandes distorções que, por vezes, podem inviabilizar boas propostas. É preciso que o governo federal promova uma política de desenvolvimento induzida para a ciência e tecnologia na Amazônia. Já houve grupos que fizeram trabalhos de campo em cidades na Amazônia com R$ 200,00 para cada um da equipe passar 28 dias, pois não fora aprovado o barco no projeto. Já hove proposta de redução de custos de um projeto para infraestrutura dos campi da UFAM no interior do Amazonas que recomendava a redução de três para apenas um carro que servisse a três campi que, pasmem, não tem ligação por estrada. Em diversos projetos, a rubrica de custeio (principalmente para viagens e diárias) passa dos limites estabelecidos e tem que ser justificados contando com a sensibilidade (nem sempre presente) do parecerista.

Se ainda não temos um (ou, de preferência, vários) modelo(s) para promover o bem estar socioambiental na Amazônia isso se deve pelo fato de não a conhecermos. Com isso, torna-se urgente o aumento no grau de democratização das decisões no âmbito da ciência e tecnologia. A necessidade de pesquisas de como se faz pesquisa na Amazônia surge e urge. É necessário um esforço maior de divulgação do exercício científico na Amazônia não somente para a sociedade em geral, mas também para quem toma as decisões a fim de sensibilizar sobre a necessidade de um representatividade espacialmente democratizada. Espaços em revistas científicas para relatos de campo devem ser amplamente aproveitados para esse fim.

Falamos em conhecer a Amazônia mas me parece que estamos um estágio atrás. Ainda precisamos conhecer sobre como conhecer a Amazônia e reconhecer isso como demanda essencial para complementar as políticas atuais de desenvolvimento da ciência e tecnologia que tem sido empreendidas no Amazonas e na Amazônia como um todo. Deste modo a precisão das iniciativas podem ser maiores e seus impactos muito mais profundos.


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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fora Amazonino!

Hoje, ao chegar em casa, acesso o twitter pelo celular e me deparo com algumas mensagens indignadas com o Amazonino. Até então, nenhuma novidade. Numa delas, havia um link para o YouTube e assisti ao vídeo que realmente justifica as mensagens que eu havia lido. O vídeo retrata o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, no auge do seu descontrole “sugerindo” para a moradora de uma área de risco que “Morra” por três vezes (igual a Pedro negando Jesus) depois desta ter dito que morava ali por não ter opção. Não satisfeito, pergunta sua origem e ao ouvir “sou do Pará” solta: “pronto, tá explicado!”. E entendo a indignação dos tuiteiros e promovo o assunto para meus poucos seguidores. E me motivo a escrever um registro para o blog.

Minha primeira reação foi uma indignação do tamanho dos problemas que a cidade enfrenta por omissão e incapacidade de gestão pública. Como pode uma reação dessas? Vi que a repercussão já conta no mínimo com Globo, Folha, G1, UOL, etc. que, embora eu tenha restrições a tais veículos, reconheço que atingem um público muito amplo. A assessoria tentará explicar. Os coniventes/parceiros/dependentes de Amazonino ficarão calados. Os vereadores da situação esperarão um pouco para ver se devem ou não abandonar o barco do “capitão Negão”. A oposição irá pra cima (espero). Mas quem vai definir isso é a população. Por isso devemos dar um basta nessa política de “faz de conta” que já não engana mais a ninguém e tomar as ruas numa só voz: FORA AMAZONINO!

Esse episódio é só um estopim para uma revolta latente do povo manauense. Temos que registrar nossas impressões sobre o ocorrido e direcionar essa mudança que já está em curso desde as manifestações pela meia-passagem. Seguir o exemplo do Egito e externar a revolta de quem está segregado nas áreas de risco e ainda tem que encarar preconceito daquele que deveria trazer sua solução. Que morra e seja enterrada a velha política populista que maquia a realidade e que de sua compostagem sujam alternativas para a justiça social e o direito à cidade. Enquanto isso não acontecer, que não haja paz no mundo politiqueiro na qual Amazonino representa o que há de pior.

André de Oliveira Moraes

Confira abaixo o vídeo da cena.