André de Moraes
Muito se tem falado sobre o insipiente conhecimento sobre a Amazônia, mas tal fato não parece ter o devido reconhecimento. As agências de fomento à pesquisa, principalmente no âmbito da união, ainda têm deixado a desejar não reconhecendo esse fato em seus pareceres sobre projetos de pesquisa oriundos da região. Não raro, ouço depoimentos de pesquisadores próximos que evidenciam o grave desconhecimento dos consultores de tais agências do que seja fazer pesquisa na Amazônia. Esse texto visa problematizar a questão da concentração das decisões no âmbito da ciência e tecnologia no Brasil e a necessidade de revisão desse modelo.
Primeiramente, é necessário dizer que as decisões no âmbito do CNPq estão concentradas no sudeste. Isso é fato quando verificamos o mapa das UF’s de atuação dos consultores dessa agência (abaixo). Um terço do total de consultores (33%) é de origem de instituições de São Paulo enquanto toda a região norte do país tem apenas 1%. Se considerarmos que a maioria desses pesquisadores não tem pesquisas na Amazônia (o que seria o mínimo para um parecer qualitativo) temos um quadro grave de desconhecimento da realidade da pesquisa na região por parte daqueles que decidem acerca dos recursos.
Um cenário semelhante é verificado quando observamos os percentuais de doutores atuando em 2009 (bolas vermelhas no mapa). São Paulo concentra 31% destes enquanto toda a região norte tem apenas 4% do total nacional. Isso justifica os incentivos a formação e fixação de doutores na Amazônia para que estes possam captar os recursos. Tal escassez de recursos humanos poderia justificar a incipiente presença destes nos comitês, entretanto prescindir desses pesquisadores que possuem real conhecimento da realidade da pesquisa na Amazônia (custos, transporte, infraestrutura, logística, etc.) nas decisões apresenta riscos de grandes distorções que, por vezes, podem inviabilizar boas propostas. É preciso que o governo federal promova uma política de desenvolvimento induzida para a ciência e tecnologia na Amazônia. Já houve grupos que fizeram trabalhos de campo em cidades na Amazônia com R$ 200,00 para cada um da equipe passar 28 dias, pois não fora aprovado o barco no projeto. Já hove proposta de redução de custos de um projeto para infraestrutura dos campi da UFAM no interior do Amazonas que recomendava a redução de três para apenas um carro que servisse a três campi que, pasmem, não tem ligação por estrada. Em diversos projetos, a rubrica de custeio (principalmente para viagens e diárias) passa dos limites estabelecidos e tem que ser justificados contando com a sensibilidade (nem sempre presente) do parecerista.
Se ainda não temos um (ou, de preferência, vários) modelo(s) para promover o bem estar socioambiental na Amazônia isso se deve pelo fato de não a conhecermos. Com isso, torna-se urgente o aumento no grau de democratização das decisões no âmbito da ciência e tecnologia. A necessidade de pesquisas de como se faz pesquisa na Amazônia surge e urge. É necessário um esforço maior de divulgação do exercício científico na Amazônia não somente para a sociedade em geral, mas também para quem toma as decisões a fim de sensibilizar sobre a necessidade de um representatividade espacialmente democratizada. Espaços em revistas científicas para relatos de campo devem ser amplamente aproveitados para esse fim.
Falamos em conhecer a Amazônia mas me parece que estamos um estágio atrás. Ainda precisamos conhecer sobre como conhecer a Amazônia e reconhecer isso como demanda essencial para complementar as políticas atuais de desenvolvimento da ciência e tecnologia que tem sido empreendidas no Amazonas e na Amazônia como um todo. Deste modo a precisão das iniciativas podem ser maiores e seus impactos muito mais profundos.
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