terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ale-gres


André de Moraes

 

















Onde mora a alegria senão nos recônditos da alma
Mesmo o canto triste não ousa ignorar o fascínio
De uma luz que brilha sem se importar com o destino
E sorri ao intento de surpreender enquanto acalma

Tal sorriso convence ao mais contido tentar
Não despeja em frias decisões o calor do momento
Aquece em mil porções o sabor que germina ao vento
Incendiando as cinzas do, outrora, perdido lutar

Embalado em redes descansa o corpo feliz
Que a vida acariciou e aos rios não negou nado
Levantando em direção ao sentir de um afago
Festejou o nascer belo e inexato de um viver aprendiz

Decifrando a despedida em derivados detalhes
De palavras e pronuncias na ousada indumentária
Se no Brasil da caipirinha, ou pelo vinho da Itália
Não me furto ao embriagar num sorrir de entalhe
Quando sambistas inspiram alegria e espantam males
E navegando descrevo o ruir da tristeza em láurea


FOTO: "Roda de Samba" por André de Moraes.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Revoluindo ao Primeiro Ato

André de Moraes

E quando o tempo parece passear por nós
Os dias embebecidos numa nuvem de revolta
Um sobreviver não comum pela vil escolta
Ainda com sombras de quem vem e tenta calar a voz

Não disseste que assim seria a primavera?
E que o muito amor seria um contento descarado
Sem vergonha da vida e mandando ao caralho
Aquilo que não fosse destruir com essa miséria

Esse cordão que nunca fora umbilicado de fato
Frugal seria o nascer da crítica aos putos políticos
Transitando pelas veias dos mil intentos malígnos
De uma vida que sempre se alimentou do mais barato

A alma que luta não responde sim ao maldito sistema
Que busca enferrujar uma revolução por segundo
Mas ao que pensa um outro possível pra esse mundo
Não se cala com o baixar das cortinas entre cenas
Retratando a miséria política que insiste em protagonizar tudo
No teatro dessa vida que ainda insiste em ser mudo


Fonte da Figura: http://www.link.dequalidade.com.br/index.php/entreterimento/em-caso-de-uma-revolucao-peguem-as-mascaras/

Mora-noite, Mora-dia


André de Moraes












As cordas, às vezes vocais, enforcam o grito
Os nós, às vezes plurais, unem as mãos
À sós, as vezes noturno, reclamam a maldição
Ali, às vezes dentro, expõem o sangue em rito
Na foz, às vezes retida, que não se expande em vazão

O coração, às vezes vermelho, reclama igualdades
A mão, às vezes cerrada, empunha o abraço ambíguo
Os olhos, às vezes vendados, apunhalam o amigo
As veias, às vezes abertas, circulam em mais cidades
E o dedo, às vezes apontado, descreve o destino

Políticos, às vezes dormentes, manejam o injusto
Populares, às vezes em linha de frente, carregam as flores
Indignados, às vezes distantes, escrevem seus horrores
Crianças, às vezes infantis, fogem ao pedido adulto
Mulheres, às vezes Maria, escolhem a menor entre as dores

Uma manhã, às vezes negra, como o anseio que se incendeia
A moradia, às vezes barraco, abriga a mais feroz luta
O ferido, às vezes de pé, não cede mesmo à força bruta
E com a semente, às vezes crioula, cultiva mesmo em areia

A revolta, às vezes externa, trará de volta o povo hoje em fuga
O amanhã, às vezes longe, há de ver em justiça social restituir
A terra, “às vezes” roubada, para as vidas de que nunca deveriam partir
Os sonhos, às vezes plantados, livres para fluir na liberdade que aos perversos insulta


Em solidariedade aos companheiros do Pinheirinho. Resistam!


domingo, 22 de janeiro de 2012

Basta?

André de Moraes













Para um bom entendedor, meia palavra...
Para um bom boêmio, meia dose...
Para um bom apaixonado, meia saudade...
Para um bom amante, meia-taça...
Para um bom jogador, meio-campo...
Para um bom romance, meia luz...
Para um bom viajante, o meio...
Para um bom estudante, meia passagem...
Para um bom restaurante, meio-dia...
Para uma boa festa, meia-noite...
Para um bom sapato, meia...
Para um bom Geógrafo, o homem e o meio...
Para um bom ator, meia platéia...
Para um bom dançarino, meia pista...
Para um bom pedestre, meio fio...
Para um bom seresteiro, meia-lua...
Para um bom pagão, meia oração...
Para a Adriana Calcanhotto, meia-hora...
Para um bom estagiário, meio expediente...
Para uma boa cruzada de pernas, meia-calça...
Para um bom prevenido, pé de meia...
Para Deus, estar no meio de nós...
Para uma boa pedra, o meio do caminho...
Para um bom conciliador, meio termo...
Para um ‘bom’ faminto, meio prato...
Para um bom Designer, meio traço...
Para um bom enrolão, meia-boca...
Para uma boa saia, meia-perna...
Para um bom Médico, meia-vida...
Para um bom surfista, meia onda...
Para uma boa cidade, meio de transporte...
Para um bom planeta, meio ambiente...
Para um bom começo, meio...
Para um bom meio, fim...

...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Música e Leituras Ambientais na Amazônia


André de Moraes
Geógrafo e músico amador


A inserção das artes no contexto interdisciplinar tem sido discutida por vários autores. No âmbito da questão ambiental, interdisciplinar em sua essência epistemológica, a discussões são direcionadas para a educação e sensibilização ambiental e divulgação científica. A despretensiosa música de vários compositores chamados ‘regionais’ que retrata desde a natureza e o cotidiano de forma integrada possui uma leitura ambiental ainda pouco explorada.

O historiador Todorov, em seu belíssimo livro A Literatura em Perigo observa que a leitura de um romance pode ser mais reveladora que um estudo sociológico, e se pode acrescentar que o mesmo se aplica às artes em geral, inclusive a música. Nesse sentido, apresentar a música como afirmação da identidade dos saberes amazônicos sugere um aprofundamento da forma e no conteúdo das canções cuja literatura aborda ricas relações socioambientais.

Interpretações e leituras sobre a Amazônia no olhar artístico representam possibilidades que podem ser lidos com a sistematização metodológica da ciência e possuem a liberdade interpretativa das artes adentrando o campo da complexidade baseada nas teias de relações que formam sistemas complexos. A abordagem sistêmica como método de apreensão das letras de músicas que versam sobre a Amazônia surge quando se percebem que entre os diversos elementos, sejam eles coisas ou objetos se conectam e transitam entre sistemas naturais e sociais complexificando as relações e oferecendo novas perspectivas interpretativas da realidade.

Os atores sociais como o caboclo, que aparece como uma espécie de representação do povo numa versão regionalizada da história nacional, são descritos em suas diversas tramas socioambientais que se misturam tempo social e tempo ecológico de forma livre, mas nunca fugindo ao cotidiano que é povoado de natureza.

Pelas análises perpassam uma necessidade de aprofundamento empírico e teórico para desvendar do tema proposto, entretanto, resultados preliminares corroboram para uma leitura da representação ambiental na musicalidade amazônica. A personificação da natureza e naturalização de alguns hábitos representam formas outras de se debruçar sobre a realidade e podem exercer funções na complexa teia de relações que envolvem ecologia e sociologia. Para além de uma interpretação literal, as subjetividades apresentam função de possibilitar as conexões entre elementos, tal qual mitos presente em comunidades indígenas.

A leitura ambiental depende de uma visão holística cara a ciência moderna mas que parece habitar concepções artísticas de onde se pode extrair possibilidade empíricas e teóricas.

Quando você voltar...


(André de Moraes, sem muito pensar na estética, apenas sentimento)













Quando vc voltar eu quero que me conte de tudo,
De todas as saudades,
De todas as vontades,
De todas as confições no silencio de uma noite fria,
De todas as palavras potencialmente ditas
De todos os frios sem meus abraços,
De todos os pensamentos involutarios,
De todas as caras bobas e perfeitas.

Conte-me de suas belezas,
Do quanto tens,
Do quanto precisas de mim,
De todos os sons que tocam nossa música,
Tudo meu amor,
Tudo o que me fizer ser um pouco mais vc...
Tudo o que me levar para esses labios,
Seus labios,
Tudo o que me fizer esperar pelo abraço,
O beijo sentido,
O calor passado,
A mão estendida que me traz vida,
Seu olhar que me deixa assim, meio querendo, meio satisfeito,
Tudo.

Quero saber das boas notícias,
Dos lugares que só uma parte de mim conhece: você!
Das bebidas que tomarei quando te beijar,
E dos ares de uma confissão plena de amor.

Quero saber da natureza,
Do que você quer que eu também veja,
Do vento que sentiste,
Quero saber das formas,
Das cidades,
Das idades que conseguiste por aí,
Dos campos que andaste,
E das colunas que escoraste o cansaso.

Quero que me digas o quanto agora és mais você.
O quanto cresceu dentro de sim mesma ao ponto de se derramar para mim.
E de toda essa alegria feita de seda,
Me envolva na sua perdição,
E me deixe ir um pouco além,
E me deixe te perseguir,
E te derrubar no chão,
E te mostrar de quantos muitos momentos se constroi a felicidade.

Quero que me deixes ouvir,
Apenas ouvir e sonhar,
E saber que enquanto espero,
Você vem.

Quero isso
Só isso...



Fonte da figura: http://www.fotolog.com.br/hellen_mobscene/22284921.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

PORTA DE COLETIVO CAI ENQUANTO PASSAGEIROS DESCIAM

“Por que a porta e não o Pré-feito?”
André de Moraes
Manaus, 23 de novembro de 2011.

Hoje, no meu deslocamento diário de 002 (interbairros), tudo ia como sempre. Demora, engarrafamentos e o desconforto de uma condução lotada. Em certo momento eu ouvia notícias pelo rádio enquanto o ônibus para no ponto próximo ao campo do “buracão” no Parque Dez de Novembro. De repente, ouço um barulho e percebo comentários com risos e ironias. A porta do coletivo havia caído quando o ônibus parou.

O motorista é alertado por passageiros e recolheu a porta acomodando-a no meio do coletivo que, após essa intervenção, seguiu seu trajeto normalmente.  “Nem pra ter caído no chifre do Negão!” exclamou uma passageira. Os trabalhadores, estudantes e demais usuários demonstravam expressões que mesclavam o trágico e o cômico, mas seguiam para seus compromissos comentando a periculosidade da situação. “seriam esses os novos ônibus que justificaram o aumento da passagem?”. Tratei de registrar a situação e torna-la pública esse episódio para não estar sujeita à pauta da mídia.


Realmente a gestão municipal não leva a sério os usuários do transporte coletivo em Manaus e não faz o mínimo esforço de promover uma discussão qualitativa. Estamos sujeitos a um prefeito notadamente perdido. O modelo político (centralizado, populista e baseado numa democracia incompleta que se esgota representatividade) que a atual gestão insiste em adotar não dá mais certo como outrora. A maior possibilidade de acesso à informação encurtou mais ainda as pernas da mentira. Isso, combinado ao eco cada vez maior das vozes que reclamam o interesse coletivo, desenha um cenário favorável a uma proposta política com maior participação e controle social resultando na indução do processo político no sentido dos interesses da coletividade.

O que podemos e devemos fazer é explorar a crítica latente por trás de episódios como este e divulgá-las fazendo com que, ao invés de portas de coletivos, vá abaixo de uma vez o “pré-feito” (nos moldes da sua visão política ultrapassada) Amazonino Mendes e toda a sua promiscuidade política, pois acredito que, se ainda havia alguma máscara, essa já caiu há muito tempo.



Fotos: André de Moraes.