quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Pós-fixos e pré-fluxos

Uma visão sobre o cenário político atual numa leitura, digamos, subjetiva...























(André de Moraes)


Diz-trair amores em falácias
Com-trair abraços, perda de tempo
Re-trair em voltas ao convento
Ex-trair! mas, a quem de suas várias?

A-corde de olho fechado
Re-corde dos sonhos perdidos
Com-corde com loucos partidos
Diz-corde de estar neste lado

Só-mente o que sabe a verdade
La-mente o agora trocando seu ‘aqui’
Diz-mente ao que veio ou está porvir
Dor-mente não apenas pela idade

Pa-terno ainda é agora o pensamento
E-terno um dia pensou que seria
Ex-terno ouço vossa senhoria
Fra-terno assim, mas não tão lento

Aborre-cia o medo do tudo aparente
Distan-cia coragem de passos de dança
Adorme-cia na boate batida da esperança
Amanhe-cia o sentimento vivo latente


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Artigos (In)definidos

Artigos (In)definidos
(André de Moraes)


Um momento de verdades
Um consenso de saudades
Um cálice de bondades
Uma vida de vontades

O caminho concedido
O carinho cometido
O político decidido
O inverno induzido

A carta escrita
A Maria envaidecida
A música perseguida
A situação resolvida

Uma letra, vista
Uma mesa, sirva
Uma devassa, pudica
Uma porta, avista

Breves silêncios
Corações a contento
Com a chuva e o sol de novembro
Nas mãos para entregar,
Uma rosa dos ventos...


À Juliana Alves, com amor.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Se posicionar politicamente é preciso...

É interessante o fato de reconhecemos que somos seres políticos e que o próprio ato de não gostar ou repudiar a política é entendido como um ato político. Essa assertiva, embora já meio batida, não perde sua essência ao pensarmos que não há silêncio na política. Enquanto nos calamos, outros falam por nós. Enquanto ficamos parados, outros se movimentam por nós. E o pior, tudo em nosso nome. Em nome da democracia.

Nas eleições passadas, Frei Betto escreveu um texto interessantíssimo entitulado "É Proibido se Omitir". Neste, o autor desafiava a todos a duas possibilidades: 1) escolher um candidato e fazer campanha para este ou 2) não havendo nenhum de preferência, ir e se candidatar. De fato é um extremo, mas não deixa de ser muito interessante para reflexão. Se estamos num regime político democrático e isso não vai mudar (pelo menos tão cedo) temos a escolha de nos omitir ou de participar e tentar alguma coisa. Nesse caso, opto pela última alternativa. Dar uma cara nova a um velho processo não é nada fácil. Iludir o povo dizendo que o voto é tudo é, no mínimo, perverso. Se sujeitar a candidatos que se auto-intitulam o melhor para a sociedade pelo assistencialismo, em nome de Deus, via nepotismo eleitoral, e que não fazem nada de concreto é um completo absurdo. Propagar aos quatro ventos que o parâmetro para analisar um bom político são as propostas é uma falácia das grandes, afinal quem disse que boas propostas e caráter são necessariamente complementares? E assim, o silêncio dos justo vai castigando o povo muito mais que o grito dos maus.

É necessário minimamente elevar o nível dos políticos de forma que não seja qualquer um que se oude apto a "representar-nos". A participação é essencial nesse processo. Pessoas que estejam abertas para atuar em frentes solidárias e participativas pode ser um caminho. Hoje, existem pouco com interesses legítimos mas existem. A parte que nos cabe nesse latifúndio eleitoral é identificar os bons políticos e potencializar seu alcance como forma de contribuir com a tão castigada política amazonense. Pense. Discuta. Pesquise na internet sobre o posicionamento dos atuais candidatos sobre as materias importantes nos últimos 2 anos, pelo menos. E depois de se informar bem (o que não é nada fácil) decida-se.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Eleições: a festa ou o luto da democracia?

"As eleições são a festa da democracia!". Quantas vezes não se ouviu isso em propagandas do TSE, falas de políticos e plenárias do movimento estudantil? Tal entendimento se tornou um senso comum no tocante a política, mas seu conteúdo é o mais anti-democrático possível.

Primeiramente, reconheçamos o perigo que há em associar festa a eleições. Comícios são os ícones maiores disso (bandas nacionais, etc.) até o TSE dar um basta. Depois, e ainda em vigência, temos uma veração absurda do ato de votar na mesma proporção em que se empobrece o incentivo à participação popular durante o mandato. Vide chavões como associar o voto ao sentido de "dever cumprido" ou "exercício PLENO da cidadania". E assim se manteve por muito tempo o discurso da representatividade como o ponto máximo do exercício político-democrático que, embora tenha sido crucial para o avanço político do país, hoje mostra suas limitações. Como discurso de apoio, ainda se propaga as mazelas como consequência dos "maus votos" (fica até estranho adjetivar o voto). E assim, se constroi uma fortaleza ideológica que mascara e sustenta o atual e fracassado modelo político baseado integralmente na representatividade.

A contrução de uma nova cultura política depende, dentre outros fatores, da desmistificação do caráter totalizante da política pelo voto. É urgente que se esclareça amplamente que a política não se esgota nas eleições por mais óbvio que isso pareça. A democracia tem como princípio o governo pelo povo que se traduz minimamente em participação popular para além do voto. Se não for assim, continuemos "curtindo" a festa eleitoral e depois é só "disfrutar" a ressaca que durará somente 4 anos de mandato.

sábado, 10 de julho de 2010

A Estrada

Sempre podemos por lentes nas coisas para vê-las de outra forma, mas mesmo assim, elas nunca deixam de ter o seu real sentido para nós.



A Estrada

(André de Moraes)


Na noite em que nada parecia bem de repente me deu uma segurança como de uma criança que dorme nos braços de sua mãe. Estava numa estrada que me levava à sensações maravilhosas. Via-me carregando alguém no colo e sorrindo com alegria de quem vive sem se preocupar com o amanhã. A estrada não me oferecia total certeza daquilo que me tornaria, mas tinha uma refletida vontade de continuar. Passei noites em claro nessa estrada e não me importava com o dia se este clareasse, pensando o quão bom seria ver o nascer do sol para o feitiço do amor. Num momento parei. Vi uma flecha que atingira o coração de uma criança que buscava pelo pai. Tentei tomá-la no colo, mas o medo me restringia. Voltei-me para o meu coração e o instiguei porque fazia aquilo comigo. Busquei auxílio à companheira da estrada que também não sabia o que fazer, mesmo assim, continuávamos, perseguíamos algo que até então não estava bem claro em nossas mentes, mas parecia ser um futuro que não dependeria da duvida presente. Assim converti meu medo em esperança, mesmo não sabendo que rumo esta tomaria. Em certos momentos, me distraia da estrada e via novos rumos onde não poderia traçar acompanhado, e me voltava novamente para a certeza que me oferecia o caminho que hora traçava mesmo com algumas incertezas, mas com escuros que construíam. As canções que nos embalavam e marcavam os passos pareciam com a vida que ainda tínhamos para correr, sem cansar. Amigos que me mantinham com os olhos voltados para um alvo me envolviam pela sua experiência. A natureza que norteava os momentos de abraço não respeitava o asfalto nem o concreto de algumas porções que vinham e voltavam. Por vezes me ausentava da estrada para construir outros futuros que não excluíam tal caminhada, inverso, a estendia até mais perspectivas. Ausências que rendiam idas e voltas no trajeto a qual se tinha proposto. A volta! Sempre com notícias do que não se tinha vivido na perspicaz vontade de compensação. As chamas que aqueciam nossos dias disfarçados de noites, não deixavam de ter seus calafrios, mas que não pareciam fugir de tudo o que a força de um desejo poderia mostrar. Sorrisos não eram raros, confusões também não. Diálogos eram intermitentes e perenes os desentendimentos. Vou desistir... e logo as “coisas da vida” que Roberto Carlos ilustra em melodia funcionavam como explicação para o desconhecido. Atenuante de histórias ruins eram os doces e beijos não explicados. Abraços não se perdiam, mas encontravam um conjunto de frases que, sem sabem como medi-las, vagavam da boca de um ao coração do outro. A militância por causas nobres de interesse social permeava o caminho, o que deixava a estrada mais bela, longe das angustias de quem pensa no melhor e tem braços curtos para estender aos companheiros que sofrem. Cartas de longe, diziam não de solidões inexploradas, mas de poesia atípicas de quem não sofre e mesmo assim sente saudades ao ponto de mastigar a distância na espera do manancial da chegada. Brincar de ser feliz. Brincar com a felicidade. Brincar com as circunstâncias que ilustram mais que imagens em movimento, mas a complexidade de duas vidas tentando a singularidade que não abre mão dos olhos nos olhos e das mãos juntas. O alimento não sadio das beiras da estrada alimentava a alma em fadiga e acordava para que um momento se tivesse junto. Intrigas com os outros andarilhos mais maduros que nem sempre compreendiam o percurso perdiam para a inconseqüência da juventude. E noites, estreladas ou chuvosas, longas ou curtas, de sono ou de exagerada sobriedade ociosa. Quanta coisa interessante se vive nessa estrada que parecia não ter fim! De repente as notícias que chegaram da “rua” não eram tão compatíveis com as nuas calmas. Distantes na mesma estrada. Caminhando junto-separados não se via harmonia nos passos e se distanciava de forma que não podia alcançar. Tentei correr. Tentei voar, mas me faltaram asas. Vi que a forma de chegar estava no ceder. Estou errado! Não fui o melhor companheiro que minhas parcas experiências permitiam. Parei e sentei na beira, disposto a pedir carona. Voltou e me deu a mão que reluzia a oportunidade da redenção. Sem dúvidas, certo do que queria, levantei e disposto a continuar a caminhada em outro ritmo com um novo vigor e asas, quando... Um nobre desconhecido me acorda declarando meus delírios. Era um sonho... Que vontade de voltar a dormir!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Intocando, Intocado

Dessas coisas nada a ver, saem outras tudo a sentir...




Um dia, ao ouvir uma música, pensei estar inserido nela e comecei a vivê-la.
Fiz tudo que ela indicava pensando que poderia ser tão feliz quanto harmoniosa era sua melodia.
Não deu certo.
Faltou-me alguma coisa que não soube explicar.
Daí pensei em como tinha perdido tempo tentando viver a música de alguém que talvez a tivesse composto no auge de sua estada na privada e me desiludi.
Segui o tempo e de repente outra música e fui tentado novamente a me apropriar de seu enredo.
Pensei.
Não me arrisquei.
Mais meio tempo depois, outra música, e outra e outra. Não entendi. Quando parei de pensar nisso, a música que tentei viver toca. Quando ia me revoltar vi que quem a tocava era um velho resmungão num andarilho violão.
Aproximei-me para verificar o que falava e vi que seus queixumes também eram por não ter conseguido ser a maldita música.
Compartilhei com ele a minha experiência e ele me falou: não podemos viver uma canção! Ela já existiu na história de alguém, mesmo enquanto possibilidade.
Tenho tentado a vida toda compor outra música que me ilustre, mas não tem jeito, ela já existe...
Louvores ao compositor!
E seguia o velho tocando, e permanecia, intocado, intocando.


....

domingo, 18 de abril de 2010

Monções de Inverno

"... sim, daquelas poesias expontâneas que fazemos quando o coração demanda se abrir! - dizia o cantador a mulher que perguntara como tinha feito com essas palavras..."


Monções de Inverno
(André de Moraes)


Em março te são as flores a que pertence
Junto aos vinhedos condensados, embriagantes
Molham as pétalas, secas ao sol, destiladas
Vívaras, árvores docentes e flertantes

Portas convidantes, con-vincentes ou semeadas
Ouvires seu ourives e os cantadores de estações
Ao cheiro de cálidas conversas sob lundus e cevada

Contemplação, cenas, peças, portícos e fadas

Rotas medidas, contritas a uma porção de amores
Mil artes no sentido dos mesmos destinos lentos
Fartas geografias inscritas nas palavras e sabores

Depois da ida, meios e tempos, nortes e ventos, vidas e cores


À Juliana, com amor.