Tão banal quando comer Seriam aqueles dias Quando tu chegavas e eu partia Mesmo quando não era a ideia se esconder E sozinho ao anoitecer Sobre o ócio refletia...
Sabe aqueles dias Quando o passado parecer fazer mais sentido O passar no presente é um alívio E o futuro nos é mera fantasia
Aqueles que simplesmente passam Sem relógio que o meça Ou atraso que lhe seja pressa E apenas de um lado para o outro vagam
Dias que encharcam os olhos Remontam-nos ao beijo Ao sorriso que ornamentou o ensejo E perfeito entardecer naquele colo
Esses mesmo de preguiça e lençol Quando o trabalho pesa mais A cabeça leva e trás Os ardores de um dia de sol
Por esses dias havia vida e mundo Mesmo que escondidos no bolso Que àquela altura era como poço E nossas mãos chegariam ao fundo
Dias quase perdidos Se não fosse o corpo Que descansa em cada porto E em curto tempo o torna comprido
Sim. Dias de dizer adeus Às ruínas que sobraram daquele tempo Que mesmo servindo para novo monumento Não deveria compor o meu
Dias passageiros e permanentes Que descontam momentos de plenitude De um passado envolto em atitude Que faz ressurgir o desejo latente
São apenas dias de fé Daqueles que temos que passar a pé Mas nada que um bom passado não envolva Um intenso presente não resolva E um imprevisível futuro não devolva E o dia seja apenas como um bom café...
Analisar comparativamente a conjuntura política nas diversas escalas no âmbito nacional é uma demanda contínua. Para além da verticalidade partidária ou de coligações, o que garante certo nível de alinhamento político entre as escala nacional e estadual/municipal, existe uma demanda de que os estados e municípios estejam atentos às discussões em âmbito nacional para não perder oportunidades, falando no sentido estratégico mais técnico do que político.
Infelizmente, o Estado do Amazonas (onde resido) nunca foi um modelo nessa estratégia e a situação tende a se agravar com o "novo" governo estadual que temos. Prova disso é a hipótese de extinção da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas num momento histórico no Brasil com a promulgação da Emenda Constituinte (EC) 85 que inclui, definitivamente, a CT&I como Política de Estado referendada na Constituição. Tal ação reconhece o avanço nas discussões de soberania que, há muito, incorporaram a CT&I como parâmetro incontestável, uma vez que nenhuma nação pode se considerar soberana se depende de tecnologias desenvolvidas em outras. Daí a questão do CsF priorizar as áreas tecnológicas, etc. (um modelo de desenvolvimento questionável, mas de importante compreensão). Torna-se irônico pensar que, por muito tempo, essa pauta foi liderada pelo então Secretário da SECTI-AM, Odenildo Sena, quando este era presidente da CONSECTI e, talvez no momento de sua efetivação nem tenhamos SECTI para comemorar, tampouco, usufruir dos benefícios desse avanço.
Nesse contexto, somente um pragmatismo político muito amador para questionar a importância de uma instituição para coordenar as as políticas de CT&I em âmbito estadual. O ridículo argumento de extinguir a SECTI como forma de enxugar a máquina pública é completamente inconsistente. Mesmo eu que não sou um especialista em administração pública sei que o orçamento da SECTI-AM, que é bem aquém do que deveria, é despendido quase que totalmente para folha de pagamento, além de algumas outras rubricas que viabilizam suas atividades fim e meio. Assim, como sustentar que esta onera a máquina pública?
Demonstrar vontade política de ajustar as contas do estado seria tratar a LDO com seriedade e, acima de tudo, lutar contra a corrupção. Mas como já venho discutido com alguns amigos, parece-me que, mesmo se não houvesse corrupção, muita coisa não andaria por conta da falta de capacidade técnica e gerencial da maior parte no alto escalão, principalmente de assessores diretos do governador. No caso do governo José Melo no Amazonas, parece que padeceremos dos dois problemas e pior, regredindo nas políticas de ciência, tecnologia e passando longe da inovação que ainda não esta tão próxima assim, mas certamente tem/tinha um caminho promissor. ...
O samba me dizia que chorasse E ali derramei um pouco de ti Daquele veludo-você que ainda havia em mim Ou me invadia mesmo se eu me fechasse Falando à boca ainda que com um beijo a calasse E naquela noite voltasse a morar em si
O samba me constrangia a sorrir E perdido na paisagem dos improvisos Onde perguntas se liam ao invés de avisos E induzia amores dos corpos sair E testando os lábios daquela que haveria de vir Perdia-me no intervalo entre o céu e o piso
O samba de fazia cantar Um extenso repertório de músicas e mulheres Sem deixar de lado a saudade daquela que fere E deixou-se em lembrança em cada olhar Tanto das que meus olhos e vontades ainda hão de visitar Quanto àquelas que me foram breves
O samba me fazia fechar os olhos E no escuro via corações atarefados Uns correndo para dançar enquanto desamarrados Outros contentes e aconchegados em seus colos Mas todos desprendidos e dispostos a um voo solo Enquanto durasse o tempo de seus pecados
O samba tentou despedir-se de nós Mas no calor das fantasias que íamos tirando Percebi que alguns acordes e batuques foram novamente se juntando E ressurgia aquela livre e coletiva voz Que trazia-nos de volta da mais distante foz E ecoou no morro que continuava sambando
Ao regresso do samba à roda brincando
Deixava a saudade lá fora a espera de nós...
Fotos: Sambaqui - República Livre do Samba; André de Moraes (jan/2015).
Poderia ter sido somente mais uma tarde. Mas acabara sendo um anoitecer desses raros, quando o sol se põe triste por que não mais poderia ver nossos sorrisos. A companhia, o cavaquinho e o violão e aqueles corações. Tudo o que se precisa para não deixar o tempo passar em vão. Antes ornado com a felicidade de quem ama e se perde no tempo e no espaço ao fechar os olhos.
Queria descrever o dia que se foi
E antes de notar sua feliz saída
Já tornava aquelas vidas anoitecidas
Para que o sonho fosse ali e a dois
Cúmplices da impossibilidade do depois
Com a sempre iminente partida...
Perguntava apenas por que não poderia o tempo estar ao nosso lado. Em se demorar naqueles segundos que não pareciam ser suficientes para descrevermos nossas tantas intersecções. E ali eu lembrava o porquê das primeiras paixões... A música dava sentido a tudo o que não poderia falar de outra forma senão cantando.
Dali partira feliz e pleno
Como se a viagem se ousasse completa
E o abraço de partida fosse o mesmo da chegada
E refletisse toda essa vontade calada
De tudo se tornar um perigo sem alerta
Onde a canção a deixaria nua e coberta
No nosso lento rio ou mesmo na veloz estrada...
Custara tão pouco de mim que acabei agradecendo sem saber bem a quem ou a o quê. Entendi que não precisamos ter explicação para tudo o que nos acontece, pois certas coisas não precisam ser explicadas. Bastam-nos que nos aconteçam. Basta que nos mostrem que o chão pode ser tão alto quanto a montanha e aquilo tudo tão verdadeiro quando a vontade de que um sambista tem de explicar a saudade.
Brincando de adiar o fim
Olhava o céu que parecia mais aberto
Mas à lembrança de que o longe estava mais perto
Antes de no dia, anoitecia em mim
Como anúncio de que seria assim
Mesmo eu insistindo que isso não era certo...
Entre a casa, plantas e nós mesmos, o céu era o único que parecia imune ao tempo e, por um momento, quis me dissolver nele para roubar-lhe essa virtude. Mas daí pensei...
Todas as cores que ainda temos que ver
Todas as músicas que ainda temos que ouvir
Todas as poesias de parede que temos ainda que escrever
Todo o amor que ainda temos que sentir
Todos os sabores que ainda temos de provar
Todas as pessoas que ainda temos que abraçar
Todos os lugares aos quais ainda devemos pertencer
Todas as portas pelas quais ainda temos que entrar
Todas as mãos que ainda temos que apertar
Todos os corações que ainda temos que aquecer
Todas as bebidas que ainda têm que nos embriagar
Tudo aquilo que ainda dará mais sentido para nosso nascer...
O tempo deveria passar. Mesmo aquele momento quando nos perdemos um no outro e a última coisa que queremos é nos encontrar para não acabar a brincadeira.
Como quem faz uma poesia
Temperávamos o tempo
E apenas depois me visitara o pensamento
Dos sabores e inebrios que aquilo continha
E, todavia, entendendo por que partia
Não me furtei ao leve lamento...
Sim, ele deve passar. Mas sua passagem deve ser como aquele trecho do livro que nos faz interromper a leitura e olhar para o horizonte. Como a música nos parece infinita com aquela vontade que nos dá de cantá-la, e cantá-la, e cantá-la... “Mi despedacito de río, hastá donde bajarás?”
Mas o tardio sorriso havia desabrochado
Talvez ao seu tempo, sem pressa
Como as muitas vidas que um rio atravessa
E, mesmo na serenidade, não se exime do brado
Corri para que meu coração estivesse sempre ao lado
Das palavras que a entreguei como promessa
De nunca mais se acabar aquela conversa
E deixar seu colo de mim sempre ornado...
Num depois totalmente dependente do antes, apenas conclui que, naquele momento, pareceu-me que havia descoberto o lugar até onde meu pedacinho de rio havia de ir... E ali não mais chorei. O menino havia sorrido junto conosco...