segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Na Contramão da Cultura: Prefeitura de Boa Vista Fecha a Casa do Neuber



Em meados de 2012, Neuber Uchôa e sua família acrescentaram no seu já considerável repertório de ações em prol da cultura local de Roraima e regional da Amazônia o espaço Casa do Neuber. Hoje fiquei surpreso em saber que o local foi autoritariamente fechado pela prefeitura de Boa Vista, RR e divulgo aqui a nota de esclarecimento e indignação de Carolina Uchôa. Sou totalmente solidário ao Neuber e sua família nessa luta e estou a disposição para ajudar a estourar as bolinhas amarelas dessa damurida. Areia!

André de Moraes

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NOTA DE ESCLARECIMENTO E INDIGNAÇÃO, por Carolina Uchôa

A vida inteira eu vi e ouvi meu pai cantando e adorando a sua terra, mesmo quando teve motivos para desistir, diante de tanta dificuldade a qual só se sabe quem é artista, sobretudo em Roraima.
Sempre vi a luta incansável do meu pai, para nos criar e alimentar do que há de melhor, inclusive intelectualmente – nos preparando dia a dia para sermos, eu e meus irmãos, seres do bem, éticos e proliferadores de nossa cultura e de nossos costumes -, numa demonstração diária de amor a nossa terra. E essa educação se estende ao povo de Roraima e aos seus fãs e admiradores, por toda a sua vida. Um povo, que há pouco tempo atrás tinha vergonha de si, andava de cabeça baixa, sorria com a mão no rosto, batia continência pra qualquer um que chegasse gritando autoridade “sabida” e só ouvia música internacional, nas rádios (que, por sua vez, são comandadas por políticos). Fomos criados para pensar, questionar, criar, para amar as pessoas e não as coisas. E a felicidade que todos andam atrás é perene em nossa vida, independentemente de qualquer bem material. A herança que meu pai vai nos deixar não tem valor calculável. Está acima do bem e do mal. E isso me basta para viver e ser. Nunca tivemos carrinhos de controle remoto, nem bonecas importadas, tampouco conhecemos a Disney. Nosso parque aquático é cachoeira, nosso carrossel é ciranda de roda, nosso carrinho é de rolimã, nossa boneca é de pano.
Nós somos uma família do bem, diferente de oligarcas do mal que predominam (por enquanto!!!) em nossa terra. Somos uma família de artistas, de pensadores, de articuladores culturais, de disseminadores de amor e música. Nossas notas são musicais; quem quiser que se mate por cédulas.

INTERDIÇÃO DA CASA DO NEUBER

Fechar uma casa de arte, um centro cultural da forma que a Casa do Neuber (meu pai) foi fechada, é abuso de poder. Uma verdadeira falta e respeito com todos nós e com nossos amigos, frequentadores da Casa. Foi um verdadeiro papelão o que a Prefeitura de Boa Vista fez. Fecharam a quadra com oito viaturas policiais e uma do corpo de bombeiros (forças que deviam chegar sempre para salvar e oferecer segurança e não o contrário, como foi feito), adentrando a casa fortemente armados, com metralhadoras em punho, ameaçando covardemente a integridade e a vida de todos os que ali estavam, visto que , a casa funcionava normalmente, com público presente, artistas e minha avó, uma senhora de 74 anos - a qual ficou visivelmente abalada. ASSUSTADOR! Essa Casa é nossa, é dos artistas, do povo, da alegria. E deveria ser enaltecida e apoiada pelo poder público - que nada faz pela cultura, não o contrário.
Tudo por causa de uma documentação atrasada. Me poupe! Devem os fundos (milhões e milhões) para Deus, o diabo e o mundo, e vêm querer atravancar justo uma casa cultural, que cobra míseros R$ 10,00 de entrada para pagar os artistas que se apresentam??!! Eu não consigo engolir isso.

Será que entraram no lugar certo?!

Dia desses houve uma fuga em massa de bandidos da Cadeia Pública; os hospitais estão caóticos, as escolas idem.O lixão é jogado irresponsavelmente no Rio Branco, de onde vem nossa água consumida. O dinheiro público ninguém sabe pra onde vai. Será que meu pai é bandido, pra ser tratado desta forma???

Não é qualquer rasteira que vai nos derrubar! Por que sequer saímos do chão. Quem anda olhando os outros por cima é urubu.

Que venham os próximos dias, com música e poesia nas nossas vidas.
Voltamos já, queridos amigos. Com site novo, projetos lindos e o astral que vocês já conhecem

Voltamos já!

COMPARTILHEM A VONTADE! obrigada.

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Fonte da figura: http://vanbrandao.com.br/category/edicoes/page/15/

domingo, 22 de junho de 2014

Konante La Tago

(André de Moraes)



Pouco sabia ao certo
Exceto a melodia que aproximava
Mas no ausente cotidiano que ainda seria oitava
Algo fazia sentir perto
Do que vejo, embora ainda encoberto
Daquilo a ser erodido por palavras

Em suas mãos se tornava música
Mesmo as mais tristes e maltratadas platinelas
Fazendo felizes os sofridos sambas que jaziam nelas
Semeando, com nossas idas, a irreligiosa súplica
De mais uma vez ter aquele musical sorriso e sua lúdica
Talvez como Gil, esperando na reluzente janela

Sua voz agredia a imperceptível monotonia
E desconhecendo distâncias entre ouvido e coração
Conduzia-me de olhos fechados ao elevar do chão
Até a altura da desconhecida filosofia
Que, desistindo, dotava as emoções de tal autonomia
E me inebriava em ofegante suspiro e leve imersão
Onde confundia meu lar com seu colo ao violão
E minha noite permanecia noite, mas com ares de dia

Em seus pés dançavam os tempos
De outrora quando olhos não me eram suficientes
Para apreender seus movimentos, mesmo latentes
Que entornaram o então êxtase e agora lamento
Pela ingrata distância que me atravessa como vento
E me faz tentar cultivar, de longe, aquelas sementes

Em seus cabelos habitava o mar
E toda a desconhecida vida que nele há
Todo o azul emprestado do Céu
Refletido, em parte, na sombra do chapéu
Onde quase escondeu o harmonioso olhar
Que sem saber que em mim encontrara um lar
Devaneava em ondas, estrelas e nesse pretenso cordel
Que, falho de forma, mas de conteúdo fiel
Narra em exaustivo suas cores sem jamais lhe desbotar

Tago era poesia em detalhes
Como a melodia que nos despovoa
E volta em momento de sorriso à toa
Trazendo alegria em artesanal entalhe
Fazendo emergir do mais profundo vale
Aquilo que só com ela voa...


Figura: Drummer Girl, Miko Zen.
Fonte: http://mikoarts.com/art/paintings/30-drummer-girl

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A importância da Cultura

(Welton Oda)





Imagino que você seja uma daquelas pessoas que acredita ser fundamental conhecer o presente a partir de um olhar sobre a história, conhecendo a origem e os processos que contribuíram para a construção da realidade tal como a conhecemos. Imagino que também deva compreender a importância de conhecer outras culturas, outras formas de pensar e agir, elementos fundamentais para que você possa dialogar, relacionar-se socialmente e evitar certos preconceitos, de natureza social, racial, étnica. Certo?
É bem provável que conheça, ou ao menos tenha ouvido falar em Abdias Nascimento, um dos mais importantes nomes do teatro brasileiro, personagem que foi também Senador da República e realizou ainda um sem número de outras coisas importantes. Também deve conhecer um dos mais importantes intelectuais contemporâneos que atuam no Brasil, o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular da USP e especialista em antropologia das populações afro-brasileiras. Como pessoa culta não deve ignorar os nomes de Ruth de Souza, Eduardo Silva, Rita Ribeiro, Romeu Evaristo, Altay Veloso, Itamar Assunção, Nelson Sargento, Flávio Bauraqui e Léa Garcia, pessoas célebres por sua atuação no teatro, na TV e na música popular brasileira?
Se não conhece (afinal, isso não é tudo), sendo uma pessoa culta, deve também privilegiar o domínio de outras línguas, como o inglês, o francês e o espanhol, mas, sobretudo aquelas que contribuíram para a formação do modo de falar do povo brasileiro, como o iorubá, o guarani, o árabe, etc. E, claro, a Rainha Njinga está presente em sua cultura pessoal tanto quanto Alexandre, o Grande. Uma pessoa como você não teria dificuldade de responder sobre os procedimentos adotados no tratamento da malária entre os cuiva ou entre os tucano, além de se interessar por mitologia, sobretudo a grega antiga, a dos povos indígenas americanos e a dos bantos.
Que ótimo! Toda essa sua cultura, esses conhecimentos universais, foram adquiridos em sua escola e na vida familiar com seus parentes e amigos! É certo que sua escola nunca foi do tipo que privilegiou apenas a cultura de matriz europeia. Se conhecimentos dessa natureza fossem pedidos a seus filhos, no ENEM, eles tirariam de letra, não é mesmo?
Agora sim, eu entendo perfeitamente que você seja contra as cotas!

Figura: Pintura de Kariny Sanchez.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Lua, Luxúria e Lamúria

(André de Moraes)

















O parco abraço não lhe foi suficiente
Para o coração que, por si, apertava um pouco mais
Todavia a razão se afrouxando ao lembrar-se dos ais
Via mais uma fração de vida sucumbindo ao deleite
De corpos que, em vão, se tornavam enfeite
E aos poucos se distanciavam do seguro cais

O desejo alado espalhava um pouco de nós
E apenas da pequena janela entreaberta se via
O que da mais alta montanha nada seria
Se não fora amalgamado entre tu nascente e eu foz
Que em farta medida se expressaria em voz
E cujo encontro se anoitecia naquele infinito dia

Na casa dos amores se despedia e voltava
Ao berço da solidão que muito lhe acolheu
Quando voltava a ser como criança que ainda nada viveu
E, chorando, despia-se das pétalas e voava
Para onde não lhe seria negado o calor da lava
E não mais lhe diriam que não era seu
O espelho mil vezes refeito para encontrar seu Orfeu
E o desejo de lhe ser muito além de palavra...

Figura: Suffer Love, Tracey EMIN (2009).
FONTE:http://goo.gl/KzoSSM

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sobras de Loa

(André de Moraes)




















Sobrara um fim
A revelia de tudo o que se era emoção
Mantendo-se a sós com escassa porção
E negando a ausência de flores no jardim
Que solitário fora trocado pelo botequim
Onde fazia das perdas samba-canção

Sobrara um sorriso
De todas as festas na qual fora flor
De todos os instintos que lhe fizeram ardor
E meias vontades que haviam se ido
Sem tornar breve o farto sentido
Embriagava minhas páginas com seu calor

Sobrara um pensamento
De todas as vencidas verdades
Umas descobertas no vento
Outras para além de nosso tempo
Mas todas vestidas de certa vontade
A conversar sobre o devir da próxima idade
Mais lento se traduzia em voz e sentimento

Sobrara um olhar
Que mostrava brumas de belas liberdades
Algumas ainda por existir
Outras já com mais idades
Mas todas anunciando um pretérito provir
Nas pupilas escondidas, mas que não podiam mentir
Sobre a leal condição de ainda ser mais que metade

Sobrara uma mulher
Que mesmo deitada se sentia em pé
E no auge da sua fraqueza deixava vivo o cabaré
E desdenhava daquele qualquer
Que vendo a vida lhe faltava fé
Desejando a morte lhe sobrava ré
E que para ela, no fim, era apenas um mal-me-quer...

Figura: Banksy.

sexta-feira, 25 de abril de 2014



Semente Vitral
Por fim, semeou vitrais com aquelas parcas luzes
Mesmo sem saber quanto ainda lhe restava de dia
Mas tocada pela força daquele que em breve se ia
Não deixaria ruir o lastro outrora escondido nas nuvens
Que garantia um sorriso desenhado à reveia dos capuzes
E germinava a palavra que em vivas cores se tornaria...
 
(André de Moraes)

Fonte da figura: http://goo.gl/DcuZTG

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Comendo o Pirão Pelas “Beiradas”: engrossando o caldo onde ele é mais ralo


André de Moraes

Ontem, em uma conversa de porta de casa com meu amigo-vizinho, eu criticava a total e proposital indisposição da Secretaria de Estado da Cultura do Estado do Amazonas (SEC/AM) em estender as políticas culturais para a periferia da cidade de Manaus. Hoje, tive a satisfação de ver o cartaz do III Festival Cultura do Pirão AM e constatar que este vai acontecer no Jorge Teixeira, bairro muito distante tanto do centro da cidade quanto das políticas públicas. Sorri e respirei.

Sou um crítico da diretriz da Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas em gastar rios de dinheiro com festivais de mínima aderência a realidade local. A ideia é inserir Manaus no circuito de grandes festivais de forma a atrair/consolidar um turismo de alto padrão. Para quem me conhece, sabe que tenho maior inclinação às iniciativas populares locais, todavia não sou contra haver festivais de ópera, jazz, cinema, dança, teatro, etc. com a presença de grandes figuras nacionais e mesmo internacionais desses segmentos. O que me incomoda profundamente é que estes levem a maioria esmagadora dos recursos em detrimento quase total dos grupos locais e da periferia da cidade. Constrói-se, assim uma segregação social no acesso às políticas públicas culturais que em nada aproveitou o interessante momento da gestão Gil-Juca no âmbito nacional para o fomento à cultura popular.

Nesse contexto, era uma questão de tempo surgir uma movimentação que fizesse frente à essa condição e pudesse expor um pouco a situação de forma provocativa, espontânea e divertida, por que não. Daí o movimento Pirão AM, propositor de uma “arte que combate a estagnação e se expressa para transformar a realidade, quebrar os estereótipos e romper as barreiras do silêncio.”*, surge como alternativa para catalisar a rica e eclética essência das propostas artísticas regionais/locais. Não à toa, convergiram músicos, artistas em geral, promotores/agitadores culturais e apoiadores (como eu). A aproximação da periferia no sentido de incluí-la num agenda cultural positiva é um bom primeiro passo. Posteriormente, reconhecer talentos e assim iniciar um diálogo que redunde num processo autonomia cultural para transformação da realidade social, torna-se algo mais próximo. Não tenhamos medo de sonhar...

Descentralizar é preciso. Logo, para além da denúncia à exclusão sociocultural da periferia, também existe a dimensão provocativa com a inclusão daquela área num circuito cultural da cidade que não costuma ser visitada senão pelos seus próprios moradores. Certamente haverá quem se pergunte por que fazer o festival tão longe, não se dando conta de que o motivo é exatamente o fato de ainda haver essa pergunta. A cidade é produto das relações de disputa entre aqueles que a produzem e a reproduzem. Nessa correlação de forças, quase sempre vencem os detentores de poder político e/ou econômico restando aos pobres algumas migalhas de cidade traduzida, principalmente, numa infraestrutura urbana precária, mas também na ausência de serviços públicos minimamente adequados, incluindo políticas públicas culturais. Com isso não estou dizendo que o festival tem a pretensão de reverter esse cenário com uma ou mais edições, mas sim que esta pode ser uma oportunidade de problematizar esse aspecto e promover uma discussão ampla sobre a cidade, exclusão socioespacial e o acesso à cultura.

Não tenho a menor expectativa de que a diretriz cultural da SEC/AM mude. Mesmo mudando a gestão, a política amazonense ainda resguarda uma estrutura conservadora/elitista/coronelista/populista que não busca/permite uma inclusão social de fato. Isso evidencia a necessidade de paralelismos, como o Movimento Pirão AM, que são muito bem vindos como antítese ao status quo da política, nesse caso, cultural. Daí torço para que o movimento prossiga esquentando e que a gente continue comendo pelas “beiradas” por ser justamente a parte mais rala do caldo, no tocante àquilo que deveria ser fomentado pelo Estado.




*trecho do Manifesto Pirão AM, disponível em: http://goo.gl/cCcVXH
Fonte da Figura: http://goo.gl/B44Sgs