terça-feira, 13 de abril de 2010

Uma Verdade Inconveniente... Tal Qual Algumas Questões

Me apropriando de uma atitude de um amigo, que ao entregar uma prova a um professor, tirava cópias desta e distribuia para que não somente o professor pudesse avaliar mas qualquer um que tivesse acesso ao conteúdo da prova, publico um texto que fiz sobre o documentário "Uma Verdade Inconveniente", ilustrando Al Gore, para a disciplina "Sociedade e Sustentabilidade" do mestrado em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da UFAM.



‘Uma’ Verdade Inconveniente... Tal Qual ‘Alguns’ Questionamentos

André de Oliveira Moraes


O que esperar de um político norte-americano divulgando informações científicas de forma jornalística com fins ‘ambientais’? E tudo isso na primeira aula de uma disciplina chamada “Sociedade e Sustentabilidade” num curso de Pós-graduação em Ciência Ambiental! O vídeo “Um Verdade Inconveniente” é um retrato dessa realidade cuja função ambiental absolve alguns (de)méritos. Nesse pequeno texto, pretende-se problematizar o aspecto político do vídeo, uma vez que somente por meio deste não é possível inferir críticas sobre a tese do aquecimento global defendida por Al Gore, sendo necessário maior aprofundamento do tema, não possível para esse trabalho.
O vídeo gira em torno da palestra de Al Gore (o mesmo que cobrou U$ 300.000,00 para comparecer a um ‘evento ambiental’ em Manaus recentemente) segundo o qual já fora ministrada mais de 1.000 vezes ao redor do mundo. Em verdade uma aula com o que há de melhor em recursos didáticos audiovisuais e subsídios científicos de ‘amigos’. Permeada por cenas da vida e cotidiano do palestrante, as informações são expostas constituindo os dados científicos associados a realidades fetídicas da paisagem ambiental. A imagem da terra como percepção da totalidade ambiental e da finitude dos recursos, a quase perda de um filho, o professor de geografia desestimulante e o professor universitário visionário, o processo eleitoral para presidente dos Estados Unidos da América, entre outros fatos são associados aos aspectos políticos e ambientais das mudanças climáticas. Alarmantes, urgentes, inconvenientes, necessários ou qualquer outro adjetivo que não tocasse de forma realmente incômoda ao motor da problemática ambiental que é o desenfreado modo capitalista de produção e o seu suporte consumista. A verdade pode se fazer presente no vídeo quando não há esforço nenhum em se aparentar o ‘ecologicamente correto’ mas no simples ato de reproduzir o vetor da insustentabilidade que é o consumismo ilustrado pelo estilo norte-americano de vida.
Os aspectos limítrofes da relação parcialíssima entre a questão ambiental e a política se mostram claros no discurso de Al Gore que, na forma do tradicional etnocentrismo norte-americano, apresenta a discussão nos termos de sua trajetória: a infância em uma grande propriedade, refletindo a concentração de terras; a derrota do pleito para presidência da república, sugerindo que também derrocava ali a chance da mudança ambiental no momento; o fomento ao papel messiânico dos Estados Unidos na resolução do problema climático curiosamente se apoiando no fato deste ser o maior emissor de gases do efeito estufa e, por isso, reivindicando esse status; e se apoiando no discurso malthusiano indicando, inclusive, os pobres como responsáveis pela pressão sobre os recursos. Tais aspectos permitem a problematização dos meios pelo qual a realidade fora exposta contando que esses não se justificam com vistas ao seu fim, no caso, o problema ambiental resultante do aquecimento global.
Partindo da perspectiva de ciência de Latour (2000) onde as relações sociais e políticas permeiam o ambiente da produção do conhecimento científico num movimento cíclico de ida e vinda, o vídeo pernicia a questão ambiental com o tema do aquecimento global entre aspectos da antropologia da ciência reconhecendo tais relações de forma explicitamente medíocre. A perspectiva ideológica da construção da informação no vídeo é evidente quando da exaltação da democracia norte-americana como fundamento político dessa solução sem, por exemplo, sequer criticar o ‘estilo norte-americano de vida’ baseado no consumismo. Ou seja, o movimento é contraditório e não se baseia em evidências da problemática social para fundamentar princípios ambientais que, aos olhos de Al Gore, são perfeitamente digeridas em suas fáceis proposições de tecnologias sustentáveis para os poucos que a ela tem acesso.
Entre dados científicos obtidos ‘amistosamente’ e cenas do seu cotidiano, Al Gore destina seu acúmulo sobre o tema em uma base científica parcial e politicamente escorregadia. Aos ‘céticos’ cabe hoje a periferia científica das publicações e os boicotes que Gore afirma ter sido imposto aos que outrora defendiam a tese do aquecimento. O que dizer de uma conferencia (COP15) onde um país tem mais de 1.000 pessoas na sua delegação para ‘discutir’ a temática? O consenso científico é importante em que escala? Quem são os cidadãos sem acesso ao conhecimento acadêmico senão receptáculos do pensamento dominante? E a tortura dos dados para que estes confessem que está esquentando? E com que olhar os estudantes de um curso de pós-graduação em Ciência Ambiental recebem essas informações?
Estas e outras questões surgem para problematizar e gerar o debate político próprio à questão ambiental tanto em sua face militante quanto científica. Nesse sentido, os especialistas são tão políticos quanto Al Gore. A diferença é que se a verdade está para a ciência assim como a conveniência para a política ou o inverso, para Al Gore isso é apenas uma conveniente questão de referencial.


Críticas críticas...

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Violão Subestimado

Acredito 'fielmente' na função das artes na construção e divulgação do conhecimento científico. Mas ultimamente notei que meu violão não mais me acompanhava nas viagens de campo, para ministrar aulas, etc. Daí parei para fazer uma poesia tentando captar o que me diria meu violão por estar sendo subestimado em sua função artisitco-científica. Daí ele me falou o que segue durante a aula de Introdução aos Estudos Geógraficos na turma do PARFOR em Itacoatiara,em 05/02/10...



O Violão Subestimado
(André de Moraes)

No canto não mostro encanto
E ciência, seca e insolúvel, não tragada
Sem arte, musica-se o nada
Se do conhecimento me faz estranho

Se notas ou deixas no anonimato
E acordes não se conjugam para o sono
De método tão espa(r)ço no Chronos
E resultado sem ritmo, meio parado

Perco para o exausto silêncio
Na dispersão de palavras deslocadas
Meu som seria alento a revoada
E o saber fecundo a todos os momentos

Antes da ciência eram as artes...


Tirando as aspas da fidelidade, viva a arte das/nas ciências!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Ataner a Otenos

Soneto feito por mim em fevereiro de 2007 para a querida amiga Renata Schimitt.


Ataner a Otenos

(André de Moraes)

Não vejo porque da ausente atenção
Se presente desatento o fará
Se corrente não realista será
As tentativas que os olhos trarão

Amparado pelo silêncio em vão
Com a tecnologia ao nosso favor
Sem ter de quem esconder, a rigor
O que deveras povoa o coração

Debalde estarei a descrever silêncios
Se os olhos não enxergam o latente
Presente que não deixou momentos

Perco as vias e porções do sono
Escrevo versos enquanto dormes
Pedindo licença, os abandono


...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Às Mulheres...

Colegas, sabemos da contrução histórica da luta das mulheres e, nesse dia, deixo uma singela mensagem para estas dádivas.


Às Mulheres
(André de Moraes)

Às que lutam, minhas mãos para ajudar
Às que vão, meus pés para acompanhar
Às que choram, meu ombro para consolar
Às que voltam, meus braços para abraçar

Às que sorriem, minha poesia para registrar
Às grandes, um banquinho para poder alcançar
Às que entram, sensibilidade no abrir da porta ao chegar
Àscumprimentadas, cavalheirismo para a mão beijar

Às feridas, minha alegria para ajudar a curar
Às que sonham, meu amor para que sempre possam recomeçar
Às que temem, minha segurança para, em paz, continuar
Às cansadas, meu abrigo para descansar e, assim, voltarem o caminhar

Às carentes... é melhor deixar pra lá...


Parabéns mulheres!

quinta-feira, 4 de março de 2010

O que se passa...

Depois de ver o filme "O Jardineiro Fiel" fiz essa poesia.


O que se passa...


O que se passa pela mente, pelo dizer a verdade ou pelas palavras mal-ditas...
O que se passa pelo coração, pela cor sem ação e pelo estreito portão...
O que se passa pelo que se acabou, pelo que ainda não começou e pelo que se espera iniciar...
O que se passa pela disposição, se não dizes a posição e nem assim quer ficar...
O que se passa pelo carinho, para um menino um carrinho, para nós caminho...
O que se passa pela estrada, depois de passar é ex, e antes o solo trada...
O que se passa pelo bem, sendo assim não muito além, suficiente para quem...
O que se passa pela oração, um sujeito que clama, um predicado que vem...
O que se passa pelo afago, o afeto desconhecido, o fato consumido ou o produto consumado...
O que se passa pelo porão, sem saber onde colocar, nem sentir quando me tirarão...
O que se passa pelo sabor, língua que só tateia, corpo servido em porção...
O que se passa pela música, ca(n)tadores de poesias, restos nas ruas da partitura...
O que se passa pelo substantivo, simples em palavra, derivado em motivo...
O que se passa pelo traidor, dizer o que este atrai, algo muito além da dor...
O que se passa pelo passado, bem ou mal passado, o cliente sempre tem razão...
O que se passa pela vida, se já vi-vida não lembro, se nunca vi a senti em vão...


O que se passa não passa, fica na memória;
Apenas esparsa o passado amarrotado que nunca ninguém passou, mas não dá mais tempo, tenho que ir embora!


O que se passa...

quarta-feira, 3 de março de 2010

"O Caminho das Perdas"

Amigos, essa história de ficar em pós-operatório está rendendo. Já saiu projeto, está saindo artigo e agora no início o que era apenas uma poesia passa a ser minha mais nova música, em memória do meu Avô Daniel Batista de Oliveira.


"O Caminho das Perdas"
(André de Moraes)

Momentos refletem idas
Num horizonte qualquer, sem destino
E os pe(r)didos, amor, lamentos
Olhar atrás, à-Deus maior, seguindo o vento...

Caminhos livres conduzem, passam
Mas o velho não passa, engoma
Com café que nos passa a Manta
Condiz à luz, maturidade, caminho alcança...

A perda é o passar da posse
E com preces se busca a volta
Na volta se esfria a busca
Padece a prece, aquece a posse, esquece a perda...



Confira o vídeo total e literalmente caseiro (tão caseiro que foi gravado na casa do meu Pai) do refrão no link
http://www.youtube.com/watch?v=C_w9FXpRuS8


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A Literatura em Perigo!

Abaixo uma resenha que fiz de um livro maravilhoso que li nesse carnaval. Para mudar nossa relação com a literatura e ela mudar nossa relação com o mundo.


TODOROV, Tzvetan. A Literatura em Perigo. São Paulo: DIFEL, 2009.


Sempre me chamou atenção o Neruda não lido solicitado para devolução em “Tocando em Miúdos” de Chico Buarque. Uma alusão preocupante à pseudo-intelectualidade que a simples posse de um livro parece oferecer perfaz a reflexão. E mais grave que isso: não conheço uma pessoa se quer que ponha em cheque a importância da literatura em contradição aos baixíssimos índices de leitura no Brasil. O que está acontecendo? O que distancia as pessoas de algo que elas mesmas assumem ser vital? De repente, soa o alarme! Uma denúncia devidamente identificada aparece na França: A Literatura está em Perigo! A atenção de um leitor em Manaus, AM, Brasil cuida de tentar difundir o caso para que o máximo de pessoas possam se mobilizar para o salvamento. Disto se trata esse escrito: um alerta aos atentos e um atento os alertos.

A premissa é conhecida: os meios estão se convertendo em fins. A fortuna crítica é ditada pelos métodos via forma e não permite o contato do leitor com a simples e pura aventura da leitura. A literatura não é apresentada aos estudantes sem que estes tenham tarefas como analisar sintaticamente o texto. Regras gramaticais como abre alas não tem garantido que o público queira prestigiar todo o desfile literário com toda a riqueza e fantasia. A construção histórica desse paradigma reclama uma atenção ao fato da arte ter ou não a relação com o “mundo exterior”: serão polarizadas as opções em “baseada em fatos reais” ou “qualquer semelhança é mera coincidência”? Todorov esclarece que o diálogo da literatura com o mundo externo a ela deve se dar via leitor numa relação fecunda e criativa para o construto de novos horizontes de compreensão da realidade por este que decifra letras. “Todos os ‘métodos’ são bons desde que continuem a ser meios em vez de se tornarem fins”, pois a eles cabe surgir uma vez definido o objetivo, do contrário...

Os métodos são bem vindos. Podem ficar, tomar um café e aguardar sua vez enquanto a fecundidade emerge de paradas entre parágrafos para imaginar, rir, chorar. Depois se entende a engenhosidade do autor na “Construção”, com o qual podemos relembrar Chico novamente.

Depois de já ter lido a obra e parado por várias vezes para simplesmente imaginar, pensei na função metalingüística em segundo grau desta resenha e seu movimento. Um texto, falando de um livro que fala da literatura, com o objetivo de que os leitores cheguem ao livro e por sua vez, adotem outros caminhos para a literatura. Dentro e fora. Ir e vir. Sendo que a volta não pode ser como a narrada por Chico em “Trocando em Miúdos”, mas que chegar e partir, sejam só dois lados da mesma viagem, como Milton e Brant sugerem, o que com um Neruda, fica ainda melhor.


Leia!